Introdução
"Que boca grande que tem o jacaré
Cuidado que ele vai comer o seu pé..."


Além da boca grande, o jacaré tem um coração enorme. Nele cabem Cecília, Daniel, Dora, João Arraes, João Carneiro, João Caminha, Júlia, Lara, Lucas, Luisa, Maria Beatriz, Maria Luisa, Miguel, Pedro Futura, Pedro Porto, Raphael, Tomás e Yuri. Embalada por muita cantoria, a turma foi se mostrando um grupo animado e interessado em descobrir as novidades da escola.

Choros e colos estiveram presentes em alguns momentos de nossa adaptação. Aos pouquinhos, cada criança em seu tempo, foi se familiarizando com o espaço escolar, com as pessoas e percebendo que aquele ambiente novo iria começar a fazer parte de suas tardes. Gradativamente, foram estreitando o vínculo com os adultos da escola e estabelecendo uma relação de confiança.

As crianças que já estavam na escola no ano passado tiveram uma participação fundamental neste período. Apresentaram a escola e ajudaram, bastante, no entrosamento e na construção do grupo.

A cantoria faz parte de nossa rotina. Cantigas populares acompanham nossas brincadeiras e nos divertem a valer: o pato, a lua, o gato, o leão e o jacaré na lagoa, tudo é motivo de festa.

A música do jacaré fez o maior sucesso e era comum, durante a cantoria, as crianças expressarem muitos sorrisos, olhinhos brilhando e muita animação. Nesse clima, numa votação, escolhemos o nome da turma.
Turma do Jacaré
O objetivo inicial era despertar nas crianças a noção de pertencerem ao grupo e, assim, iniciar a construção da nossa identidade.

A Turma do Jacaré é composta por um grupo muito interessado em conversar sobre os assuntos que surgem nas rodas, curioso, atento e ativo. As crianças têm uma boa escuta, o que facilita a organização e o convívio. A cada dia estão aprendendo a lidar melhor com as regras e os limites.

Aproveitamos a curiosidade sobre o jacaré para estudar suas características. Apreciamos várias imagens do animal, pesquisamos sobre os seus tamanhos, alimentação, reprodução e onde poderíamos encontrá-lo. Todos juntos, confeccionamos um jacaré com muita tinta, cola, sucata e argila.

"Jacaré está na lagoa
Com preguiça de acordar...
Acorda jacaré!!!!"
Rotina
A chegada à escola é um ótimo momento onde podemos compartilhar novidades e dar uma atenção mais individualizada aos pais e às crianças. Nesse momento, aproveitamos para exercitar a autonomia das crianças chamando sua atenção para o cuidado com os seus pertences, incentivando-as a tirar o lanche e a agenda da mochila para colocá-los nas cestas.

Após este primeiro momento é comum nos perguntarem: Vai ter roda? Podemos pegar os brinquedos? A consulta espontânea tem nos ajudado bastante na organização da roda.
A Roda
É na roda que planejamos o nosso dia. Organizamos a sequência das salas que vamos utilizar e conversamos sobre as atividades em cada uma delas, abrindo a possibilidade de participação das crianças no que planejamos. Na roda, estão adquirindo o hábito de falar e ouvir o colega e são estimuladas a contribuir com suas ideias e sugestões. Assim podemos observar a organização do pensamento, ao se expressarem, e incentivar a participação de todas.

Buscamos garantir, também, o contato com a escrita por meio do manuseio diário das fichas com o nome de cada criança, por meio das quais descobrimos quem já chegou e quem ainda não veio à escola.

Na roda, também, utilizamos o calendário, onde marcamos o dia, nossos passeios, aniversários e outras datas importantes, garantindo o contato das crianças com os números.
O Projeto
Buscando aproximar o grupo do projeto institucional "Cidades: das Aldeias às Grandes Metrópoles" fizemos uma pesquisa em parceria com as famílias sobre os espaços públicos da cidade que as crianças costumam frequentar para brincar. Partimos das fotografias enviadas, que retratavam diversos espaços como o Jardim Botânico, o Parque Laje, o Museu da Casa de Rui Barbosa, a Praia de Ipanema, a Lagoa Rodrigo de Freitas e algumas praças. Fomos, gradativamente, completando um mural com as fotos e imagens que chegavam, dia a dia, trazendo novidades. Com isso, surgia uma ótima oportunidade para as crianças se expressarem, enriquecendo o seu vocabulário e ampliando a sua capacidade de comunicação.

Um dos nossos principais objetivos foi explorar alguns desses espaços públicos de forma mais ampla, reconhecendo os objetos, as características do lugar e as pessoas que costumam frequentá-lo.

Juntos, escolhemos ir até a Lagoa Rodrigo de Freitas para apreciar, de pertinho, o que havíamos observado nas fotografias e para descobrir se nessa lagoa tinha jacaré. Fomos até a colônia de pescadores para conversar com os eles, já que conhecem muito bem o lugar. Fomos recebidos por Valter, que interrompeu a costura de sua rede para conversar conosco, nos contar um pouco sobre o seu ofício, mostrar seu material de trabalho e tirar todas as nossas dúvidas sobre aquele espaço. Num bate-papo descontraído, descobrimos que na lagoa não tem jacaré e sim muitos peixinhos, mas que, às vezes, quando a água está muito suja, esses peixinhos acabam morrendo.
Texto Coletivo
" Passeamos na Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá, vimos um peixe fora da água. Ele estava morto. Depois, fomos conversar com o pescador que se chamava Valter. Ele mostrou a tarrafa e falou que na Lagoa não tem tubarão nem jacaré, mas que tem muito peixe. Também andamos até o heliporto, mas também não tinha nenhum helicóptero, só lá no céu. Depois, nós voltamos de ônibus para escola. Nosso passeio foi muito legal! "
O Projeto...
Depois fomos até o Largo dos Leões brincar na praça. Assim que chegamos avistamos os encantadores brinquedos que, rapidamente, foram explorados pelos pequenos, e nos impressionamos com o trânsito barulhento da rua São Clemente. Numa rápida conversa sobre os cuidados que devemos ter com o espaço que é de todos, Lara fez o seguinte comentário: "Não precisa nem de vassoura, está tudo limpinho."

Conhecer um pouco mais sobre a nossa cidade despertou o sentimento de pertencimento a um lugar que é diferente de nossa casa e escola. Conhecer alguns lugares da cidade nos aproximou de diferentes pessoas e ajudou aplantar uma pequena semente sobre a importância do preservar e cuidar também do que é coletivo.

Depois foi a hora de conhecer o Museu. Além de apreciarmos a linda casa do Museu do Índio, onde se encontra o acervo em exposição, aproveitamos para brincar no jardim. Para alegrar o passeio, o índio Marruri, da tribo Funiô, de Pernambuco, cantou, dançou e tocou chocalho para as crianças, que ficaram maravilhadas. Quando chegaram à escola, experimentaram tocar chocalho como o Marruri e pintar os pés e dançar em cima de um caminho de papel. Foi uma farra!

Assim, finalizamos as pesquisas sobre o projeto, "Meus Lugares Preferidos da Cidade". Mas as crianças quiseram conhecer mais um lugar da nossa cidade, depois que a Cecília falou: "Eu conheço Jacarepaguá! Meu avô Marcos mora lá e hoje eu vou para a casa dele." Então, resolvemos escrever uma carta para o Marcos perguntando sobre o seu bairro. A resposta veio com sua visita à escola, quando nos mostrou o jornal do bairro, algumas fotos e contou muitas histórias interessantes. Marcela e Henrique, tia e pai da Cecília, também apareceram para completar a visita.

Andréia, secretária da escola, também nos contou algumas curiosidades e nos mostrou outras imagens desse lugar, onde também mora, enriquecendo mais as nossas conversas.

Para aproximar a Turma do Jacaré da Copa do mundo e preparar a Copa da Pereirinha, investimos em jogos, brincadeiras e atividades com muita tinta e papel com as cores da bandeira do Brasil. A farra ficou completa com a integração de toda a escola, brincando e cantando os gritos de guerra. Brasil!

Depois da Copa começamos os ensaios para a Festa Junina. As crianças cantaram e dançaram numa grande roda o repertório do "arraiá" da Sá Pereira e produziram bandeirinhas com diferentes pinturas e colagens com tecidos e papéis.

Foi um prazer estar ao lado dessas crianças tão queridas, incentivar seus avanços e compartilhar cada momento vivido na Sá Pereira.

Expressão Corporal
Roberta
Ressabiados, nossos pequenos chegaram ao salão agarrados aos pais. Aos poucos, foram seduzidos por inúmeros materiais e se permitiram brincar, ainda que timidamente. Após o período de adaptação, começamos o trabalho específico da disciplina. Com ajuda de lenços coloridos, "ensaboamos" cada parte do nosso corpo, nomeando-as e favorecendo a noção do esquema corporal. Também exploramos diferentes maneiras de situá-lo no espaço: os dois pés para cima, mão no ombro, uma mão para cima e outra para baixo e outras tantas possibilidades. As aquisições motoras eram percebidas, aula após aula, assim como a capacidade de organização e concentração do grupo. Passamos a iniciar as aulas sentados em roda, alongando e trabalhando o corpo. Os materiais, que no inicio eram indispensáveis para que a aula acontecesse, passaram a fazer figuração. A autonomia conquistada permitia que o trabalho utilizasse nossa própria matéria prima: o corpo.

Ao nos aproximarmos do projeto da turma, brincando com o nome que as crianças escolheram, Turma do Jacaré, Reproduzimos seus movimento. Montamos uma grande lagoa, com materiais azuis de texturas diferentes, para que nossos reptéis pudessem sensibilizar as partes do corpo. Para finalizar, dançamos as canções aprendidas nas aulas de música.

Exploramos os planos alto, médio e baixo. Improvisamos sobre diferentes estímulos sonoros, ora utilizando objetos facilitadores (panos, fitas, lanternas), ora apenas com o corpo.

Estamos, agora, nos preparando para a nossa Festa Junina. Temos pulado muita fogueira, batendo os pés e as mãos!

É com todas essas conquistas, desembaraço motor, liberdade e espontaneidade que fechamos esse primeiro semestre, fazendo grandes planos para o retorno.

Música
Jean
Iniciamos o ano em meio à algazarra do carnaval. Aproveitando a alegria que invade nossa cidade, tratamos de espantar a desconfiança e o chororô natural desse delicado momento de adaptação com as nossas tradicionais marchinhas de carnaval. Afinal de contas quem não chora não mama. "Mamãe eu quero / Mamãe eu quero mamar / Dá a chupeta / Dá a chupeta pro nenem não chorar". Podemos notar que, além de nossa cidade ser maravilhosa e cheia de encantos mil, dava para sentir na pele todo o calor dessa chegada. "Allah la ô / Mas que calor!".

A Turma do Jacaré não ficou de papo pro ar nesse semestre. "Jacaré tá na lagoa, com preguiça de acordar / Deixa estar seu jacaré, que a lagoa há de secar / Acorda jacaré!". Atentos às canções, quando não estávamos brincando de roda estávamos tentando acompanhar, com chocalhos e tambores, a cantoria. Na verdade a turminha já sabe obedecer aos comandos de regência. O momento de tocar, de esperar, de parar. Pediu-pra-parar-parou! "O Jacaré / É amigo, ele é / Qual é, compadre, que a lagoa não dá pé", do disco "O que é que tem dentro?". Também fomos descobrindo alguns sons corporais. "Mão, mão, mão / Pé, pé, pé / Ninguém tem a boca grande como tem o jacaré". Com a sua boca enorme, o Seu Jaca tentou convencer a sua pequena amiga, a Dona Formiguinha, a passear. "Ah, eu sinto muito / Hoje não vai dar / Está chovendo muito e eu posso me molhar / e se eu pego uma gripe / Dano a espirrar / Atchin!". As canções de roda e brinquedos cantados estiveram no centro das atividades das nossas aulas. Além de contribuir para a formação de um repertório comum, que perpassa gerações, começamos a experimentar o sabor de brincar de mãos dadas e nos organizar melhor corporal e espacialmente, mesmo que tal estrutura não durasse muito tempo. "Eu sou, eu sou, eu sou / Eu sou jacaré poiô / Sacode o rabo jacaré / Eu sou jacaré poiô". Na Copa da Pererinha nossos pequeninos, quando não estavam jogando defendendo as cores da camisa, estavam gritando, a plenos pulmões, os gritos das torcidas que elaboramos com eles. Uma festa! Fechamos o semestre nos aprontando para a Festa Junina, explorando um repertório de canções folclóricas.