Relatório de Grupo
Nossos primeiros encontros foram intermediados pela caixa surpresa e pelos contos de fadas. O suspense que envolve a caixa cria um clima de cumplicidade e ajuda nas primeiras formas de organização do grupo. Os contos de fadas, já conhecidos, facilitam os primeiros contatos.

Logo, as conversas começaram a girar em torno do projeto institucional "As Cidades, das Aldeias às Grandes Metrópoles". A ideia inicial foi trazer as cidades medievais como primeiro projeto. Mas, como partir para essas cidades antigas sem que houvesse uma sensibilização, algo que pudesse levá-las a imaginar as cidades num tempo tão distante? Como não cair, simplesmente, na vida que se levava no interior dos castelos – o que costuma ser muito atraente para as crianças – mas, trazer, de alguma forma, a vida nas cidades medievais? Resolvemos partir da nossa própria cidade, visitando alguns lugares que pudéssemos, mais tarde, comparar com as cidades medievais.

Levantamos o que as crianças conheciam sobre as cidades e organizamos listas no blocão com estas informações, que para pensar em possíveis nomes para a turma. E Turma da Rua foi o nome escolhido.

Para aprofundar os vínculos e reafirmar a escolha, trabalhamos com a idéia da rua nas artes visuais e, também, por meio de brincadeiras corporais. Trouxemos canções como "Se essa rua fosse minha" e "Ora bolas," de Paulo Tatit, e fomos passear no quarteirão da escola para fazer um mapeamento. Tentamos fotografar tudo o que haviam listado para colar na listagem do blocão. Lemos o livro "Rua do Marcelo", de Ruth Rocha, para chamar a atenção para os arredores da cidade.

Elegemos algumas questões para aprofundar, como quais os aparelhos, instituições e equipamentos de uma cidade? Como se vive numa cidade hoje? Quem cuida da nossa cidade? Como a água chega à torneira da nossa casa? Para onde vai o cocô da privada? Quando a rua fica suja quem limpa? Visitamos o "site" da CEDAE e da COMLURB e também a Estação de tratamento de águas do Flamengo. Conversamos sobre todos os serviços que a COMLURB presta, como limpeza das praias, coleta hospitalar, poda de árvores, limpeza de parques etc. Fizemos um "tour" de ônibus para conhecer instituições e aparelhos da cidade como igrejas, bancos, corpo de bombeiros, lojas comerciais, escolas, supermercados, feiras, clubes, parques, cinemas e teatros.

A partir do livro "O que há por debaixo da cidade", de Herman e Nina Schineider, pesquisamos o que precisamos para que as nossas casas funcionem e o que chega ou sai pelo encanamento subterrâneo. Em artes, convidamos as crianças a representar o que viam sobre a cidade na parte superior de uma folha e na parte inferior o encanamento sob as ruas, reproduzido por canudos. Também retrataram garis e as praias sujas e limpas da cidade.

Montamos um jogo da memória com as fotos tiradas nos passeios e enriquecemos nosso banco de dados com palavras estáveis que servem de fonte de pesquisa para a construção de novas palavras pelas crianças. Tentamos criar recursos para que pudessem saber o que compõe uma cidade atual e entender alguns de seus serviços.

Depois desse sobrevôo pela cidade atual, trouxemos a seguinte questão: "As cidades nem sempre foram assim. Como deve ter sido a vida no tempo dos castelos?"

Para começar, lemos trechos dos livros "Como seria sua vida na Idade Média?", de Fiona Macdonald, e "Idade Média para seus filhos", de Jacques Legoff. Assistimos a trechos do filme "Coração de Dragão", de Rob Cohen, com o intuito de aproximar nossas crianças da paisagem da época e de entrar em contato com elementos do imaginário, também relacionados àquela época. O filme foi um convite para uma encantadora viagem à Idade Média. Tempo de grandes castelos, numerosas batalhas, corajosas mulheres e cavaleiros, poderosos reis e criaturas mágicas, misteriosas como o simpático dragão "Drako". Curiosas, questionaram sobre a necessidade de se realizar batalhas: "Mas por que eles lutavam?". Observaram, também, como a natureza humana é diversa.

Para ilustrar nossas discussões, construímos a maquete de um burgo medieval, com as torres da igreja bem altas, com seus vitrais coloridos; o castelo de pedra com suas pontes e portões levadiços; as casas daqueles que geraram o maior desenvolvimento das cidades, os artesãos.

Depois de pesquisar sobre os valores, estrutura e papéis da sociedade medieval, e embalados pela "Opereta Medieval", de Ana Moura, a turma se envolveu com os ofícios que caracterizavam a época. Camponeses, ferreiros, cavaleiros, trovadores, cozinheiras, acrobatas, reis e rainhas deram forma ao grupo de crianças da Turma da Rua, que arrancou suspiros da platéia de pais que as assistiram em sua Festa Pedagógica.

Apreciamos o belo quadro do flamengo Pieter Brueghel, chamado "Jogos Infantis", onde as crianças tiveram oportunidade de comparar as brincadeiras realizadas entre as duas épocas. Inspiradas nesse quadro, realizaram, além de brincadeiras da época, a construção de jogos como da moeda, baralhos e dados. Por meio de jogos e brincadeiras com os números e as quantidades, as crianças se familiarizam com o universo dos cálculos. Contamos os pontos, as cartas, as agendas, os materiais que eram distribuídos, os dedinhos levantados diante de uma votação, enfim vivenciamos situações matemáticas significativas.

O Grupo
A Turma da Rua tem vinte crianças com diferentes idades. Com isto, nosso objetivo é fazer um trabalho cotidiano de respeito, valorizando a troca de experiências e estimulando a aceitação das diferenças. Cada uma tem um tempo de aprender, uma forma de se expressar. Enfim, cada uma tem uma forma singular de ser e de estar no mundo.

Logo no início do ano, foi preciso favorecer a percepção do grupo para essa característica. Foi importante que se conscientizassem, não só da variedade etária, mas das diferentes possibilidades que cada uma apresentava, de participação e necessidade de atenção, tanto do professor como de seus pares. Realizamos, então, uma brincadeira que pôde evidenciar essas diferenças convidando os mais experientes a serem solidários e mais tolerantes, além de compromissados com o bom funcionamento das atividades. Essa experiência ajudou a transformar a atitude, especialmente dos mais velhos que, em alguns momentos, se incomodavam com o tempo de concentração reduzido dos menores, principalmente nas rodinhas. Combinamos, também, algumas estratégias como trabalhar algumas regras de convivência.

As dramatizações de histórias e os jogos no pátio foram também recursos que usamos para ajudar na socialização de nossas crianças.

Muitas conquistas foram alcançadas ao longo deste semestre! O grupo amadureceu e vem avançando em suas relações. Depois das férias, mais um semestre de muitas aprendizagens e alegria. Até a volta!
Expressão Corporal
Roberta
Nosso reencontro foi marcado por beijos, abraços e novidades. Em roda, nos apresentamos de uma maneira diferente: brincamos com as sílabas dos nossos nomes, transformando-as em movimento. Retomamos nossa roda de alongamento e preparamos o corpo para os desafios que estavam por vir: um grande circuito com diferentes materiais; túnel, colchão, pranchas de equilíbrio, bambolês, tecidos etc. Entre equilíbrios, pequenos saltos, cambalhotas e outras estripulias, percebemos a evolução motora dos pequenos. Usamos a trilha de "Onqotô", do Grupo Corpo, para experimentar pequenos deslocamentos em diagonal e os diferentes balanços do corpo, dando ênfase às transferências de peso. Utilizamos imagens mentais como abraçar o mundo, pintar a sala etc, para que as crianças pudessem, estimuladas pela imaginação, se apropriar da movimentação proposta.

Ao nos aproximarmos do projeto da turma, exploramos o nome escolhido pelas crianças: Turma da Rua. Ensinamos algumas brincadeiras comuns ao espaço da rua: Alturinha, Amarelinha, Queimadinha. Trabalhamos as sinalizações da rua, reproduzindo corporalmente diferentes placas. Dramatizamos algumas situações presenciadas pelas crianças durante o passeio à igreja, à feira, à praça, ao parque. Assistimos a alguns vídeos de "Street Dance" e dançamos juntos experimentando a movimentação desse estilo tão contagiante! Da rua, de hoje em dia, fomos para as ruelas da Idade Média. Nossas pesquisas resultaram na coreografia apresentada na Festa Pedagógica, incorporando movimentações típicas das danças populares da época e dos diferentes ofícios.

Após a Festa, assistimos a um trecho de "Maracanã", de Deborah Colker. A Copa estava chegando e era preciso vivenciá-la. Listamos os movimentos dos jogadores de futebol e transformamos os movimentos em uma pequena célula coreográfica. Chutamos a gol, defendemos grandes jogadas e nos divertimos no pouco tempo que tivemos. Da Copa, fomos direto para a Festa de João. Temos pulado muita "fogueira", batendo os pés e as mãos.

Terminamos esse semestre, orgulhosos das conquistas dessa turma e fazendo grandes planos para o retorno das pequenas férias de julho.
Música
Jean
Se o assunto é Cidade, nada como começar o ano envolvidos com a festa popular de maior identidade do carioca, o carnaval. O desejo de ocupar as ruas tocando e cantando mostra um incrível espírito de cidadania e alegria que é compartilhado, naturalmente, pelas crianças. Mesmo sem o nosso bloco este ano, fizemos da nossa chegada um verdadeiro carnaval. "Cidade Maravilhosa / Cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa coração do meu Brasil! Mas a coisa pegou fogo, mesmo, com a batucada da garotada com tambores e chocalhos. "Allah la ô / Mas que calor! Antes da escolha do nome da turma, contamos a história musical recolhida pela Bia Bedran, "Tatecalanque - a história do menino que não tinha nome".

A Turma da Rua aproveitou o semestre para descobrir que a cidade se comunica, mostra sua emoção e se estrutura com as suas ruas. A rua é o lado de fora, mas espelha o que guardamos e somos dentro de nós. "Se essa rua / Fosse minha / Eu mandava / Ladrilhar / Com pedrinhas de brilhantes / Para o meu amor passar". Em ano de Copa do Mundo, trabalhamos a música "Ora Bolas", do Palavra Cantada, reforçando, com percussão, a cantoria ritmada de perguntas e respostas. A música sai da perspectiva da bola, no pé de um menino, até transformá-la no nosso planeta. "Oi, oi, oi / Olha aquela bola / A bola pula bem no pé / No pé do menino / Quem é esse menino? / Esse menino é meu vizinho / Onde que ele mora? / Mora lá naquela casa / Onde está a casa? / A casa está na rua / Onde está a rua? / Tá dentro da cidade / Onde está a Cidade? / Tá do lado da floresta / (…) / E o que é o planeta? / É uma bola que rebola lá no céu". Foi um excelente momento, no qual trabalhamos a noção de pulso rítmico, e na atividade de passar o pulso de um para o outro, em roda.

Mas as ruas, também, escondem debaixo de seus bueiros as galerias de esgotos, as redes de gás, de telefonia e sistemas de drenagem, importantíssimos e vitais para o corpo da cidade. Para entender como é o abastecimento de água das nossas casas, apreciarmos a música "Água", do Palavra Cantada. "Da cachoeira até a represa / Da represa até a caixa d'água / da caixa d'água até a torneira / Da torneira até o filtro / Do filtro até o copo / Do copo até a boca / Da boca até a bexiga / Da bexiga até a privada / Da privada até o cano / Do cano até o rio". Nossa experiência sonora estava apenas começando. Munidos de bacias, panelas, funis, peneiras, colheres-de-pau e canudos, fomos investigar os sons da água. Descobrimos que, de quanto mais alto derramamos água de uma panela até a bacia, mais forte e intenso o som fica. Com o funil, também diferenciamos o som da água mais caldalosa da água dispersa pela peneira. Os canudos fizeram a água borbulhar e a panela, emborcada, fazia um efeito de flexotone quando percutida dentro d'água. No fim, a molhadeira foi ralo abaixo. E se o cano trás a fonte até nossas casas, também leva nossos dejetos para longe. E como toda criança adora falar sobre eles, assistimos ao vídeo musical do Cocoricó com a "História do Cocô", onde o próprio cocô pede que lhe deem mais importância, pois é fundamental para adubar a vida. "Já tô acustumado / Já tô acustumado a ser pisado / Maltratado / Ser jogado pro esgoto / Ser usado como xingamento / Palavrão / Coisa ruim / (…) / Ninguém gosta de mim / Mas eu não tô nem aí / Eu sou cocô / Eu nasci assim".

Com um computador e um banco de sons urbanos para sonoplastia, tentamos descobrir a qual meio de transporte, som da natureza ou ambiente urbano cada som se relacionava, registrando o resultado em desenhos. A turma viajou no tempo para conhecer um pouco dos afazeres nas ruas das cidades medievais. E, como trovadores, cantaram o seu cotidiano. O resultado dessa pesquisa foi apresentado na Festa Pedagógica.

Na Copa Pererinha, nossos pequeninos, quando não estavam jogando, defendendo as cores das suas camisas, gritavam, a plenos pulmões, os gritos das torcidas que elaboramos com eles. Uma festa! Fechamos o semestre nos aprontando para a Festa Junina, explorando um repertório de canções folclóricas.