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Adaptação
Como em todo começo, é natural observarmos um emaranhado de emoções nas crianças. Foi assim com a Turma do Bonde. Algumas, já mais à vontade com o espaço, chegaram brincando e buscando suas referências dos anos anteriores. Outras externaram seus sentimentos com um olhar desconfiado, um chorinho preso na garganta. Todas tinham algo em comum: a curiosidade de explorar o novo e a vontade de brincar e aproveitar a escola. Uma característica desse grupo, que pôde ser percebida ainda nos primeiros dias de aula, foi a facilidade com que fazia novas parcerias e amizades. Acreditamos que o sujeito se faz nas relações que estabelece com o outro, e ter um grupo integrado, em tão pouco tempo, nos deu uma mostra de quão rico seria.
O Grupo
Em geral, um grupo em que sua maioria seja meninos costuma ser muito ativo, movimentado, corporal. Formado por 13 meninos e 7meninas, nossos dias começam com muita movimentação, brincadeiras, gaiatices e muitas risadas... Organizar nossas rodas de início de dia foi um dos grandes desafios. Exercitar a escuta, saber o momento de se colocar, cumprir as regras do grupo e ter cuidados com os amigos foram temas recorrentes em nossas discussões. Muitas vezes foi preciso, com firmeza, dar limites claros e necessários para que pudéssemos alcançar o nosso objetivo de ter um grupo envolvido com as propostas e uma boa convivência.
Aos poucos, todos os pequenos vêm percebendo a importância de se colocar, expor suas ideias, e também a de acolher as ideias dos outros. Compreender que cada um tem seu lugar no grupo, que as crianças, assim como os adultos, têm características diferentes, e que ajudar e ser ajudado é um movimento que beneficia todos. Perceber isso faz um grupo de crianças mais inteiro para os desafios do cotidiano escolar e mais integradas.
O Projeto
Quando a turma começou, ainda no período de adaptação, fomos sondando os interesses das crianças, apresentando algumas informações sobre o que havíamos planejado e vendo os seus conhecimentos prévios sobre o projeto institucional.
Como o tema é sobre as cidades, começamos com o livro "A caminho da escola", de Fabia Terri. Sua história traz várias crianças, que vivem em cidades diferentes do Brasil, em seu trajeto de casa até a escola, utilizando os mais diversos meios de transporte. Daí surgiu a pesquisa sobre o trajeto de casa à escola. Como fazem para ir à Sá Pereira? Qual o meio de transporte usam? Essa atividade se desdobrou em um registro, no blocão, de todos os transportes que conhecíamos. Esses nomes nos acompanharam em diversas atividades de escrita.
Na hora de escolhermos um nome para a turma, em votação com sugestões das crianças e dos professores, surgiu a Turma do Bonde. A partir daí começamos a sugerir atividades que possibilitassem um maior envolvimento com a temática dos transportes. O livro "Cidade em Movimento, o transporte no Rio Antigo" nos trouxe o cotidiano das pessoas quando a locomoção era feita a pé, a cavalo, ou nos bondes.
Aproveitando a pesquisa sobre os caminhos para escola, começamos a entrevistar alguns funcionários para descobrir como faziam para chegar ao trabalho. Nessa investigação, descobrimos que a Sandra pegava um bondinho, todos os dias, para chegar à escola. A curiosidade de conhecer sua casa e esse bonde foi imediata. Partimos, então, para o nosso primeiro e inesquecível passeio: o Morro Santa Marta.
Para enriquecer nosso projeto de pesquisa, a cada semana, trazíamos imagens e alguma curiosidade sobre um transporte, utilizando-o para fazer trabalhos de escrita, encenações no salão, brincadeiras no pátio, trabalhos de artes, montagem com sucatas, trabalhos coletivos etc.
Conhecemos o personagem Rex, do artista plástico Angelo de Aquino, através do livro "Em cena Rex: Vida de cachorro", de Mércia Leitão, que conta a história do cachorro que procura um dono. O Rex, quando novo, ficava sonhando em viajar pelo mundo. Na primeira oportunidade, embarcou em um navio e foi conhecendo cidades. Propusemos o desafio de fazermos, também, uma viagem pelo mundo para conhecer grandes cidades e seus meios de transporte. Nessa viagem, o Rex seria nosso guia.
Preparamos o Rex e os passaportes, marcamos o destino no mapa e embarcamos para São Francisco, nos EUA. A Sofia Castro e o Guilherme trouxeram muitas imagens e informações sobre o lugar, o que enriqueceu nossa pesquisa. Conhecemos o Pier 35, o grande aquário marinho e a imponente ponte "Golden Gate", além dos seus charmosos bondes.
O passeio ao aeroporto Santos Dumont despertou a curiosidade para uma pesquisa paralela sobre o "pai da aviação". As crianças se encantaram com suas invenções e seu jeito inquieto e curioso.
Após um período de estadia, já estava na hora de partirmos para o próximo destino. Londres foi eleita nossa segunda parada. As visitas do Carlito, pai da Cecília Carvalhosa e do Carlinhos, pai do Francisco Tirré, ampliaram nossas pesquisas sobre essa encantadora cidade. O famoso ônibus de dois andares e o "Big Ben" foi o que mais chamou a atenção dos pequenos. Ainda na Inglaterra, nos divertimos muito ao som dos Beatles e fomos presenteados com uma breve apresentação do João, irmão do Francisco Tirré, cantando no salão da escola algumas canções da banda.
Veneza também fez parte do nosso roteiro, onde conhecemos os canais e a curiosa locomoção, de muitos dos seus habitantes, feita a pé ou por barcos. O charme das gôndolas não poderia passar despercebido e rendeu belíssimos trabalhos de artes.
Algumas das produções que foram preparadas com muito capricho ao longo das viagens foram expostas em nossa Festa Pedagógica, quando tivemos a apresentação de uma das produções coletivas mais significativas ao longo do semestre, a coreografia inspirada no "Trenzinho Caipira", de Villa Lobos, e o coral da turma.
Com a aproximação da Copa do Mundo, a temática do futebol tomou conta das discussões. As crianças traziam, diariamente, novas informações sobre os países participantes, álbuns de figurinhas e curiosidades sobre a Copa. A empolgação tomou conta das partidas de futebol dos pátios e o ponto alto foi nossa animadíssima Copa da Pereirinha. E ainda teve espaço para os festejos juninos, contação de histórias, muitas músicas e danças que culminaram na bela festa na Feira de São Critovão.
Seguindo o desejo dos pequenos, resolvemos desembarcar em um safári na África do Sul e explorar a rica fauna do lugar. Assistimos ao filme "Kiricu e os animais selvagens", fomos num passeio ao Jardim Zoológico e fizemos belos trabalhos de artes.
Mas, sempre chega a hora de arrumar as malas e voltar para casa. Muitos momentos ricos e descobertas foram vividos por esse grupo ao longo do semestre, recordações que ficarão conosco por muito tempo nos diários da memória.
Expressão Corporal
Roberta
Nosso reencontro foi marcado por beijos, abraços e novidades. Em roda, nos apresentamos de uma maneira diferente: brincamos com as sílabas dos nossos nomes, transformando-as em movimento. Retomamos nossa roda de alongamento e preparamos o corpo para os desafios que estavam por vir: um grande circuito com diferentes materiais; túnel, colchão, pranchas de equilíbrio, bambolês, tecidos etc. Entre equilíbrios, pequenos saltos, cambalhotas e outras estripulias, percebemos a evolução motora dos pequenos. Usamos a trilha de "Onqotô", do Grupo Corpo, para experimentar pequenos deslocamentos em diagonal e os diferentes balanços do corpo, dando ênfase às transferências de peso. Utilizamos imagens mentais como abraçar o mundo, pintar a sala etc, para que as crianças pudessem, estimuladas pela imaginação, se apropriar da movimentação proposta.
Ao nos aproximarmos do projeto da turma, exploramos o nome escolhido pelas crianças: Turma do Bonde. Trabalhamos as rodas, com cambalhotas e movimentos circulares que podemos realizar corporalmente. Formamos um bonde com nossos amigos e obedecemos aos estímulos motores (correr, agachar, pular, andar) sem deixá-lo descarrilhar. Criamos diferentes movimentos para o som do bonde. Experimentamos andar em trilhos especialmente criados no salão. Continuamos explorando os transportes, reproduzindo corporalmente cada um deles. O resultado dessas pesquisas foi organizado e apresentado em nossa Festa Pedagógica.
Após a Festa, assistimos a um trecho de "Maracanã", de Deborah Colker. A Copa estava chegando e era preciso vivenciá-la. Listamos os movimentos dos jogadores de futebol e transformamos os movimentos em uma pequena célula coreográfica. Chutamos a gol, defendemos grandes jogadas e nos divertimos no pouco tempo que tivemos. Da Copa, fomos direto para a Festa de João. Temos pulado muita "fogueira", batendo os pés e as mãos.
Terminamos esse semestre, orgulhosos das conquistas dessa turma e fazendo grandes planos para o retorno das pequenas férias de julho.
Música
Jean
Se o assunto é Cidade, nada como começar o ano envolvidos com a festa popular de maior identidade do carioca, o carnaval. O desejo de ocupar as ruas tocando e cantando mostra um incrível espírito de cidadania e alegria que é compartilhado, naturalmente, pelas crianças. Mesmo sem o nosso bloco este ano, fizemos da nossa chegada um verdadeiro carnaval. "Cidade Maravilhosa / Cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa coração do meu Brasil! Mas a coisa pegou fogo, mesmo, com a batucada da garotada com tambores e chocalhos. "Allah la ô / Mas que calor! Antes da escolha do nome da turma, contamos a história musical recolhida pela Bia Bedran, "Tatecalanque - a história do menino que não tinha nome".
A Turma do Bonde, com um toque saudosista, quis pesquisar os meios de transporte que fazem parte e ajudam a contar um pouco da história da cidade. Para não pegar o bonde andando, revivemos algumas marchinhas da época dos Bondes Folias, quando se brincava carnaval a bordo. "Não pago o bonde Iaiá / Não pago o bonde Ioiô / Não pago o bonde pois conheço o condutor / Quando estou na brincadeira / Não pago o bonde nem que seja por favor." Fizemos um trabalho com a marcha "Corre, corre Lambretinha", do Braguinha, com a cantoria acompanhada por um instrumental que reforçava o timbre de cada meio de transporte. O reco-reco era a lambreta, o guizo a bicicleta e castanholas e blocks faziam o trote do cavalo. "O vovô ia à cavalo / Para visitar vovó / O papai de bicicleta / Pra ver mamãe ora vejam só / Hoje tudo está mudado / Mudou tudo sim senhor / E eu tenho uma lambreta / Para ver o meu amor / Corre corre lambretinha pela Estrada além / Corre, corre lambretinha que eu vou ver meu bem".
Ficamos impressionados com o trabalho do percussionista Ricardo Siri, que vimos no youtube como transforma a lataria de um fusca em percussão. Tomando como base o som do motor fora do ponto, a música "No Tranco" conta, ainda, com um naipe de trombones. Para não perdermos o "Rumo" (Grupo paulista que deu origem ao Palavra Cantada), brincamos de motoristas na música "Canção do Carro", do disco "Vamos Passear". "Quem quer passear de carro? / Quem quer passear de carro? / Quem quiser passear de carro / Então vem passear de carro / Brrrtktk / Click-clak, abre a porta da frente / Click-clak, abre a porta de trás / Todas as portas, clipt-clapt / Vamos passear de carro." Com um computador e um banco de sons urbanos para sonoplastia, tentamos descobrir a qual meio de transporte, som da natureza ou ambiente urbano cada som se relacionava, registrando o resultado em ddesenhos.
Mas foi quando pegamos carona em "O Trenzinho do Caipira", de Villa Lobos, que as crianças soltaram o gogó. A letra, de Ferreira Gullar, parece mesmo embalar, com velocidade, nossa viagem de trem. "Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade e noite a girar". O trabalho pôde ser apreciado na Festa Pedagógica.
Já na Copa Pererinha, nossos pequeninos, quando não estavam jogando, defendendo as cores das suas camisas, estavam gritando a plenos pulmões os gritos das torcidas elaborados com eles. Uma festa! Fechamos o semestre nos aprontando para a Festa Junina, explorando um repertório de canções folclóricas.
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